
Novo panorama epidemiológico da Fiocruz revela que jovens trabalhadores, especialmente aqueles acima de 18 anos, sofrem agravos de saúde em proporções alarmantes devido à precarização, longas jornadas e falta de proteção social.
A saúde de jovens brasileiros na faixa etária de 15 a 29 anos está sendo moldada pelas duras condições do mercado de trabalho. É o que aponta um extenso dossiê produzido por especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), intitulado Panorama da situação de saúde de jovens brasileiros – 2016 a 2022: intersecções entre juventude, saúde e trabalho, que buscou traçar um panorama da situação de saúde da juventude, focando na intersecção entre juventude, saúde e trabalho no período entre 2016 e 2022.
A ideia central do estudo, confirmada pelos dados, é que a condição juvenil contemporânea é marcada por um trabalho que "tem implicações significativas” na saúde dos jovens trabalhadores, um segmento que "tem sofrido de forma singular agravos à saúde em função do trabalho que conseguem fazer".
A realidade da juventude trabalhadora
O conceito de juventude, no Brasil, compreende pessoas de 15 a 29 anos, conforme o Estatuto da Juventude (EJ). Contudo, o estudo reforça a importância de diferenciar subfaixas etárias (15-19, 20-24 e 25-29), já que a inserção no mercado de trabalho se intensifica drasticamente após a adolescência.
A socióloga e pesquisadora Helena Abramo destaca que a juventude brasileira é majoritariamente constituída por trabalhadores: "70% dos jovens entre 20 e 29 anos está no mercado de trabalho, trabalhando ou procurando emprego".
Apesar de a retórica glamourizar o "empreendedorismo" e o trabalho flexível, a maioria dos jovens está em condição assalariada e, grande parte, na informalidade. Essa juventude, mesmo com maior nível de escolaridade, enfrenta "piores condições no mercado de trabalho que o conjunto da população trabalhadora, e têm menos acesso aos direitos e à proteção no trabalho".
O pesquisador da Agenda Jovem da Fundação Oswaldo Cruz e um dos organizadores do Dossiê oriundo da pesquisa, André Sobrinho, critica a invisibilidade dessa parcela: "É sempre importante afirmar isso diante de um quadro que invisibiliza essa condição da juventude trabalhadora".
Risco acentuado: acidentes e violência
Os dados epidemiológicos mostram que a juventude (15-29 anos) concentra as mais altas taxas de mortalidade por causas externas, relacionadas a violências e acidentes.
Entre 2016 e 2022, jovens de 15 a 29 anos responderam por 33% de todos os acidentes de trabalho notificados no país. A taxa de incidência de acidentes é significativamente maior nos grupos etários de 20 a 29 anos, em comparação com adultos (30 anos ou mais).
Um achado inquietante é a associação entre acidentes de trânsito e trabalho. Enquanto, na população geral, 37% dos acidentes de trânsito estão ligados ao trabalho, essa taxa é ainda maior para o segmento mais velho da juventude: 43% dos acidentes de trânsito com jovens de 25 a 29 anos registrados no DataSUS estavam relacionados ao trabalho ou ao trajeto.
Abramo reflete sobre o que essa taxa significa: "Isso (...) nos obriga a pensar sobre as condições de trabalho a que esses jovens estão submetidos, e a velocidade que precisam imprimir para ter um retorno mínimo de rendimento, ou para conseguir conciliar suas diferentes jornadas de atividade".
A violência, por sua vez, atinge a juventude em maior proporção que as demais faixas etárias. O risco de morte por causas externas é notoriamente maior para jovens negros. Os homicídios e a intervenção policial envolvendo armas de fogo destacam-se como causas de óbito, e é a 8ª causa de morte de jovens negros no país.
A crise de saúde mental e a invisibilidade no SUS
Os transtornos mentais são um agravamento de saúde crucial para essa faixa etária, aparecendo como a primeira causa de internação entre homens jovens.
A análise dos transtornos mentais relacionados ao trabalho (TMRT) – incluindo ansiedade, depressão e estresse pós-traumático – aponta para uma "feminização da situação". Do total de notificações de TMRT em jovens:
• 74% são registros de mulheres jovens.
• A maioria desses casos evoluiu para incapacidade temporária (51% dos casos em jovens).
A pesquisadora do Laboratório de Educação Profissional em Informações e Registros em Saúde (Lires) da Escola de Saúde Joaquim Venâncio, Bianca Borges da Silva Leandro, ressalta que essa prevalência feminina pode estar ligada ao fato de as mulheres serem "mais propensas a buscar assistência à saúde para resolver diferentes problemas de saúde", mas também indica que elas podem ter "mais facilidade de se reconhecer em uma situação de transtorno mental no trabalho e buscar cuidado nos serviços de saúde".
No entanto, o sistema de saúde enfrenta barreiras para compreender plenamente a relação entre trabalho e adoecimento juvenil. Um dos maiores desafios é a incompletude de dados sobre ocupação nos sistemas de informação do SUS.
Abramo critica essa falha no registro: "Uma das dificuldades para montar esse dossiê foi a imprecisão sobre os dados relacionados a atividades dos jovens nas bases de dados do sistema de saúde, principalmente sobre a ocupação de jovens, quase nunca preenchida. Menos de 1% dos casos de internação traziam essa informação". André Sobrinho complementa que o Estatuto da Juventude "ainda é pouco apreendido no âmbito da saúde".
Horizonte de direitos e a luta por políticas
Diante desse cenário, especialistas enfatizam a urgência de uma resposta política que reconheça jovens como sujeitos de direitos e garanta um cuidado integral à saúde para além da adolescência.
O desenvolvimento do Estatuto da Juventude (Lei 12.852/2013) deve se traduzir em políticas públicas que garantam "o direito de ser jovem", englobando saúde, educação, e o direito ao território e ao trabalho decente.
No entanto, o país ainda carece de uma estrutura formal de atenção. André Sobrinho aponta a lacuna: "É preciso que haja uma Política [Nacional de Saúde Integral para Adolescentes e Jovens]. Estamos em 2025 e ainda não temos aprovada uma Política Nacional de Saúde Integral para Adolescentes e Jovens, algo que se arrasta há pelo menos duas décadas".
A cientista social, membro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e militante do Levante Popular da Juventude, Marta Gomes, reforça que a busca por esses direitos exige engajamento social e político. O Estatuto da Juventude, apesar de "tão bonito nas letras, mas ele pode ser muito bonito também na realidade". Para ela, a história da juventude mostra que "tudo que se conquista se conquista com muita luta".
As prioridades para a política de saúde devem incluir o foco na saúde em associação com o trabalho, a saúde mental, e a qualificação do registro de dados de ocupação para subsidiar ações de prevenção e combate à precariedade.
Para entender a análise e conhecer em detalhes os dados, recortes e reflexões apresentados pelos pesquisadores, acesse o dossiê Panorama da situação de saúde de jovens brasileiros – 2016 a 2022: intersecções entre juventude, saúde e trabalho, produzido pela Fiocruz. O material reúne informações fundamentais para compreender os impactos da precarização do trabalho no adoecimento da juventude brasileira e subsidiar o debate sobre políticas públicas e garantia de direitos.

